XXXV

descansa teus olhos; ainda podes
como poucos relaxar o que te assombra
e esquecer as retinas fatigadas
as mãos pesadas
os braços fugidios
teu corpo esquiva-se: deixa
não corra atrás
não assujeite
teus dias não serão mais bem levados
em belos trajes de carne
ou sem eles
descansa-te a ti mesmo
joga a chave fora
dá à porta as costas
não à vida
não aos teus eus adormecidos

XXXIV

mente que mente
mente que vaga
mente jamais calma
escancaro-me em mim
desabrochada
e são tantas vias
são tantas flores
são tantas águas
que sempre as quero voltas
nunca fecho nem retas
que me retranquem
no viver como era
assim, sempre assim
todo dia do princípio ao fim
de mim
tempo meu que não foi
dilatou, expandiu
me fugiu e explodiu
meu amor
meu vazio

XXXII

meus olhos se derramam por teu corpo
como a lava pela encosta, desabada,
que se pega e crava, devorando
a vida, requeimando a pele
renascendo tórridos
torrentemoinha

anjos do inferno, celestiais demônios
cá dentro engalfinhados todos
em sanguinária, horrenda
impiedosa batalha convulsiva
atirando-me a urrar ora em teus lábios
ora a teus pés ou à fúria que consome
arrebata e adormece corpos estafados
extáticos no abismo do prazer
a lava pulsa, meus olhos calam
banalidadezinhas

XXXI

 

meus sóis desabrocham mansos
sorridentes, sonhadores
quase sempre solitários
solidarizamo-nos, cirandas
que somos, assanhados
por vezes, insensatos
frente à sanha
avassalante desse mundo
sem sabores nem razões
soterrado
meus sóis se esgueiram sôfregos
respiram complacentes,
sereiosos, passarébrios
neste céu de nuvens safas
que sonhei-me sem sentidos
sem saudades

XXX

 
botei fogo em minha biblioteca
e no lugar plantei um jardim
onde moro há muita criança
carente de toda alegria e carinho
plantei brinquedos e flores
plantei chafarizes e amores
plantei presentes presentes
o que aprendi dos livros?
que não desabrocham flores
que não empurram o sol
que não brotam fontes
falsas pistas todos
desvios labirintosos
atalhos sedutores, sugadores
quem não se traga no oco do mundo?
em paz estejam
era tempo, mais que tempo,
de meus sinais inventar
meus mínimos, meus fracos,
meus barulhentos e alegres e quentes,
meus nascentes
minhas vidas e sóis
eu arrebol

XXIX

este vestido largo, desajustado,
desconfortável sempre,
não me pertence
não, me desmente

despi-me. nua
nova lua
divaguei livre
divaguei outra
divaguei por vontade?

sempre desconfio
desses meus instintos racionais demais
livres demais, bruscos demais
(eu tão demenos nesse mundo doido…)

olho pra trás e os panos caídos
que deveriam estar parados, jogados,
parecem me acenar, se não me acusam

retorno quieta, apreensiva
terei sentido medo de viver a vida?
bobinha
nostalgia é solução?

XXVII

crepita lá fora a fogueira de sombras
sempre lá fora, sempre alheia, irrendentora
a devorar-me cá dentro, que o frio
da lava bruta arrepia, atropelo borbulhante.
sim, eu brinco sempre, claramentindo:
às vezes os sinais são também textos,
exibem-se complexos por falta de opção.
alguém intende (assim mesmo: in-tende)?
se à tua frente espalho dez canetas
ou gizes, e que cinco fossem,
pintavas o desenho qual querias
se quisesses (não mando nem quero; sorte).
se te presenteio sete balas
degusta-as se queres quando e onde,
à tua preferência, à tua ordem, comigo ou apesar.
fazes sempre o que queres dos sinais,
fazes sempre o que a ti te convidaram
se não permitiram, se não comandaram,
se não submeteram sempre que os intendes.
fazes porque fazes; és tua ficção e tua verdade,
teu fogo gélido, tua rocha incandescente.
exprimes: de dentro vem o mundo
o demais fora é aparência e resultado.
a propósito: já te miraste no espelho?

XXVI

outro dia encontrei a Verdade
me espantei, segurei
e sentamos juntas num bar
chope vai, chope vem
e soprou pra longe o receiozinho
dela de se abrir e me mostrar
perguntei tudo – quem era, donde vinha
pronde ía, o que queria e o que não
e então soube: calou-se e sorriu
tentei de novo pelas bordas:
e os deuses, o universo,
o mais e o menos, o tempo,
a vida e a morte, o antes e o depois,
o infinito, as estrelas, deus
e o diabo, a liberdade, tudo e nada, enfim
que é deles? que me diz?
ela gargalhou na minha cara!
(bebinha de tudo, é verdade…)
baixei a cortina da sobrancelha
espiei por cima, pros lados
meio amuada, possessa
quase entendi tudo
e deixei a conta pra ela
mal educada
isso não se faz

XXV

o tempo é uma bolinha doida
gargalhando de língua pra fora
fazendo estripulia
e zombando com caretas
dos caretas

não, não aquele tempo
o de todo mundo, de agora
de antes e depois e certo marcado
preciso irritante pontual esquizóide
o meu cá dentro, o meu desembrulhável
que atiro pra cima e pra baixo
pro lado em que estiver virada
na cara de quem me atazana
(vou morder sua orelha!)

a minha bolinha sacaninha
doida pra quicar em todo lado
safadinha
mesmo dormindo gira
nunca para