XXXI

 

meus sóis desabrocham mansos
sorridentes, sonhadores
quase sempre solitários
solidarizamo-nos, cirandas
que somos, assanhados
por vezes, insensatos
frente à sanha
avassalante desse mundo
sem sabores nem razões
soterrado
meus sóis se esgueiram sôfregos
respiram complacentes,
sereiosos, passarébrios
neste céu de nuvens safas
que sonhei-me sem sentidos
sem saudades

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XXVII

crepita lá fora a fogueira de sombras
sempre lá fora, sempre alheia, irrendentora
a devorar-me cá dentro, que o frio
da lava bruta arrepia, atropelo borbulhante.
sim, eu brinco sempre, claramentindo:
às vezes os sinais são também textos,
exibem-se complexos por falta de opção.
alguém intende (assim mesmo: in-tende)?
se à tua frente espalho dez canetas
ou gizes, e que cinco fossem,
pintavas o desenho qual querias
se quisesses (não mando nem quero; sorte).
se te presenteio sete balas
degusta-as se queres quando e onde,
à tua preferência, à tua ordem, comigo ou apesar.
fazes sempre o que queres dos sinais,
fazes sempre o que a ti te convidaram
se não permitiram, se não comandaram,
se não submeteram sempre que os intendes.
fazes porque fazes; és tua ficção e tua verdade,
teu fogo gélido, tua rocha incandescente.
exprimes: de dentro vem o mundo
o demais fora é aparência e resultado.
a propósito: já te miraste no espelho?

XI

tenho nada não a dizer
e digo sabendo bem por que
meu peito é uma guerra diadorina
entra a fé quelemém que não mais tenho
e o abismo riobaldo que me esmaga
luciferina luz que me arrebata
trevoso deus sem olhos que me traga
meu ser tão pequeno destroncado
minha rosa sem redoma urucuiana
meu amor sem razão, só incerteza
beleza sem véu, correntes lágrimas