XXIX

este vestido largo, desajustado,
desconfortável sempre,
não me pertence
não, me desmente

despi-me. nua
nova lua
divaguei livre
divaguei outra
divaguei por vontade?

sempre desconfio
desses meus instintos racionais demais
livres demais, bruscos demais
(eu tão demenos nesse mundo doido…)

olho pra trás e os panos caídos
que deveriam estar parados, jogados,
parecem me acenar, se não me acusam

retorno quieta, apreensiva
terei sentido medo de viver a vida?
bobinha
nostalgia é solução?

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XXVII

crepita lá fora a fogueira de sombras
sempre lá fora, sempre alheia, irrendentora
a devorar-me cá dentro, que o frio
da lava bruta arrepia, atropelo borbulhante.
sim, eu brinco sempre, claramentindo:
às vezes os sinais são também textos,
exibem-se complexos por falta de opção.
alguém intende (assim mesmo: in-tende)?
se à tua frente espalho dez canetas
ou gizes, e que cinco fossem,
pintavas o desenho qual querias
se quisesses (não mando nem quero; sorte).
se te presenteio sete balas
degusta-as se queres quando e onde,
à tua preferência, à tua ordem, comigo ou apesar.
fazes sempre o que queres dos sinais,
fazes sempre o que a ti te convidaram
se não permitiram, se não comandaram,
se não submeteram sempre que os intendes.
fazes porque fazes; és tua ficção e tua verdade,
teu fogo gélido, tua rocha incandescente.
exprimes: de dentro vem o mundo
o demais fora é aparência e resultado.
a propósito: já te miraste no espelho?