XXXVI – em Bashô

Kareeda_ni_karasu_no_tomari_keri_aki_no

silêncio
impermanente manso
mar e céu

meu haikai
samurai de mim
de papel

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XXXV

descansa teus olhos; ainda podes
como poucos relaxar o que te assombra
e esquecer as retinas fatigadas
as mãos pesadas
os braços fugidios
teu corpo esquiva-se: deixa
não corra atrás
não assujeite
teus dias não serão mais bem levados
em belos trajes de carne
ou sem eles
descansa-te a ti mesmo
joga a chave fora
dá à porta as costas
não à vida
não aos teus eus adormecidos

XXXII

meus olhos se derramam por teu corpo
como a lava pela encosta, desabada,
que se pega e crava, devorando
a vida, requeimando a pele
renascendo tórridos
torrentemoinha

anjos do inferno, celestiais demônios
cá dentro engalfinhados todos
em sanguinária, horrenda
impiedosa batalha convulsiva
atirando-me a urrar ora em teus lábios
ora a teus pés ou à fúria que consome
arrebata e adormece corpos estafados
extáticos no abismo do prazer
a lava pulsa, meus olhos calam
banalidadezinhas

XXXI

 

meus sóis desabrocham mansos
sorridentes, sonhadores
quase sempre solitários
solidarizamo-nos, cirandas
que somos, assanhados
por vezes, insensatos
frente à sanha
avassalante desse mundo
sem sabores nem razões
soterrado
meus sóis se esgueiram sôfregos
respiram complacentes,
sereiosos, passarébrios
neste céu de nuvens safas
que sonhei-me sem sentidos
sem saudades

XXIX

este vestido largo, desajustado,
desconfortável sempre,
não me pertence
não, me desmente

despi-me. nua
nova lua
divaguei livre
divaguei outra
divaguei por vontade?

sempre desconfio
desses meus instintos racionais demais
livres demais, bruscos demais
(eu tão demenos nesse mundo doido…)

olho pra trás e os panos caídos
que deveriam estar parados, jogados,
parecem me acenar, se não me acusam

retorno quieta, apreensiva
terei sentido medo de viver a vida?
bobinha
nostalgia é solução?