XXXII

meus olhos se derramam por teu corpo
como a lava pela encosta, desabada,
que se pega e crava, devorando
a vida, requeimando a pele
renascendo tórridos
torrentemoinha

anjos do inferno, celestiais demônios
cá dentro engalfinhados todos
em sanguinária, horrenda
impiedosa batalha convulsiva
atirando-me a urrar ora em teus lábios
ora a teus pés ou à fúria que consome
arrebata e adormece corpos estafados
extáticos no abismo do prazer
a lava pulsa, meus olhos calam
banalidadezinhas

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XXXI

 

meus sóis desabrocham mansos
sorridentes, sonhadores
quase sempre solitários
solidarizamo-nos, cirandas
que somos, assanhados
por vezes, insensatos
frente à sanha
avassalante desse mundo
sem sabores nem razões
soterrado
meus sóis se esgueiram sôfregos
respiram complacentes,
sereiosos, passarébrios
neste céu de nuvens safas
que sonhei-me sem sentidos
sem saudades

XXIV

faltam poemas
sim, faltam poemas que me digam
que me digam, eu disse,
que me digam a mim quem sou
quem venho sussurrando ser
quem me não faço a cada instante
faltam poemas, falta tudo
a palavra e o tempo se abraçaram
e se esqueceram de gerar
dormiram, não copularam, não gozaram
ainda não se descobriram em si mesmos
ainda não dançaram os olhos mágicos
faltam poemas, falto-me
contemplo um sol sem luz
a noite inteira